Um fato e suas versões

12 Dez 2011

Dia 4 de dezembro foi dia de Santa Bárbara. Tendo recebido o convite da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, de Salvador, para presidir a santa Missa, combinei com o sacerdote responsável por essa Irmandade os diversos momentos da celebração. Houve, assim, uma criteriosa escolha de cantos, de comentários e de tudo o que exige uma boa celebração. Na homilia, lembrei o que caracterizou a vida não só de Santa Bárbara, mas de todos os mártires da História da Igreja: a fidelidade a Cristo. Os mártires demonstraram ter feito uma opção fundamental por Jesus. Aceitaram amá-lo mais do que a si próprios, pois viviam da convicção de que Jesus é o Filho Único do Pai, o Salvador, o irmão, o amigo. O encontro com a pessoa de Jesus deu um novo horizonte às suas vidas. Eles viveram o que, em nossos tempos, é assim sintetizado: “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher” (Aparecida, 18). A celebração a que me referi acima transcorreu normal. Se houve alguma coisa de diferente foi na hora da apresentação das ofertas (o “ofertório”): normalmente, o povo leva para perto do altar o que é fruto de seu trabalho; na missa do dia 4, foram levadas, também, algumas cestas de acarajé, que ficaram na frente do altar, até o final da celebração. Soube, depois, que, terminada a missa, houve a distribuição entre o povo, do que havia sido ofertado, como acontece em outras celebrações populares, com os doces e salgados que alguém oferece. Até aqui temos o fato. Entro, agora, no campo das versões que nasceram a partir daí. Para surpresa minha, apareceram em jornais, “sites” e em noticiários televisivos, os mais inesperados comentários. Dou alguns exemplos: “Arcebispo da Bahia faz missa com hóstia, acarajé e atabaques”; “A festa foi marcada pela total integração entre religiões e credos, do início ao fim dos rituais”; “Houve distribuição ao mesmo tempo de hóstia e acarajé, comida ofertada à Yansã”, e vai por aí afora. Não posso deixar de lembrar uma frase a mim atribuída: “Se formos analisar profundamente, não existe diferença entre as religiões” – pensamento que é totalmente contrário ao que vivo, pratico e ensino. Sou a favor do ecumenismo – isto é, do diálogo entre as religiões que acreditam em Jesus Cristo como Deus e Salvador, e creem na Santíssima Trindade. O pedido de Jesus ao Pai – “Pai, que todos sejam um” (Jo 17,21) –, nos motiva a buscar a unidade. Sou a favor do diálogo com as religiões não-cristãs, pois, como nos ensinou o Concílio Vaticano II, “a Igreja Católica nada rejeita do que há de verdadeiro e santo nestas religiões” (NAe, 2). Não posso aceitar, contudo, o que os dicionários definem como “sincretismo”: “fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas” (Houaiss); “tendência à unificação de idéias ou de doutrinas diversificadas e, por vezes, até mesmo inconciliáveis” (Aurélio); “amálgama de doutrinas ou concepções diferentes” (Dicionário Etimológico Nova Fronteira). Com o sincretismo, todos perdem. Já o profundo conhecimento da própria fé ou da crença que norteia um grupo religioso é a base e o fundamento de todo e qualquer diálogo produtivo. Quando não há esse conhecimento, o resultado será mesmo um “amálgama” (= “mistura de elementos heterogêneos ou diferentes”, segundo Houaiss). O apóstolo Pedro advertia às primeiras comunidades: “Sabei dar, aos que vos pedirem, a razão da vossa esperança” (1Pe 3,15). Somente um cristão que conhece bem a sua própria fé é capaz de dar as razões de sua esperança, com grande respeito aos que pensam de forma diferente. Independentemente das religiões que cada qual pratica, todos somos chamados a trabalhar por causas que dignificam a vida humana – por exemplo: a paz, a justiça, a promoção dos necessitados, a solidariedade etc. No mais, saibamos nos respeitar mutuamente, além de respeitar, de forma especial, as celebrações de cada grupo religioso. Aos responsáveis pela mídia, um pedido: busquem esclarecer-se a respeito do que forem falar, comentar ou descrever. Afinal, o maior serviço que a Imprensa pode e deve prestar à sociedade é a apresentação da verdade dos fatos - da verdade, somente da verdade. Fonte: CNBB