A cabeça de João Batista

14 Dez 2011

Era muita empolgação por pouca coisa. Que a jovem tivesse dançado de forma perfeita, tudo bem; daí a ter o direito de pedir o que quisesse, mesmo que fosse a metade do reino, só se compreende pela circunstância: era uma festa e o vinho devia estar correndo solto há muito tempo, não poupando de seus efeitos nem mesmo o poderoso Herodes. A promessa feita por esse rei à jovem dançarina, diante de todos os convidados, deve ter deixado todo mundo surpreso: “Tudo o que me pedires eu te darei...” (Mc 6, 23). Confusa diante da generosidade do tio, a dançarina dirigiu-se à mãe, em busca de ajuda: o que pedir? Para Herodíades, esposa de Felipe (irmão do rei), era a oportunidade há tanto tempo esperada. Poderia, agora, vingar-se de João Batista, que criticara Herodes pelo relacionamento que tinha com ela, a cunhada: “Não te é lícito”, dissera-lhe o Batista, “ter a mulher de teu irmão” (Mc 6,18). A mãe da jovem não sugeriu à filha que pedisse a metade do reino, nem títulos de honra, mas a cabeça do profeta incômodo chamado João Batista. Deve ter pensado: além de vingar-me dele, livro-me de críticas futuras. Por este pedido, Herodes não esperava; chegou a entristecer-se ao ouvi-lo. Sentia, porém, ser vergonhoso não atendê-lo “por causa do juramento e dos convidados” (Mc 6,26). Assim, aquele profeta que havia recebido o mais alto elogio de Jesus - “dentre os nascidos de mulher, nenhum foi maior do que João Batista” (Mt 11, 11) -, morreria por um motivo mesquinho: aplacar um desejo de vingança. Não poderia Deus ter feito uma intervenção extraordinária? Não teria condições de evitar esta morte? Não lhe seria possível preservar aquele que se dedicara com tanto entusiasmo à missão de “preparar os caminhos do Senhor”? Não houve milagre; não houve nenhuma ação extraordinária de Deus. Herodíades poderia ter sofrido um infarte ou qualquer mal estar súbito antes de ter feito o pedido. Tivesse morrido na noite anterior, não teria havia a dança da filha; então, uma vida tão importante como a de Batista teria sido resguardada. Essas perguntas e reflexões são nossas, muito nossas. “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos”, havia dito o Senhor, alguns séculos antes, pela boca de Isaías. “Quanto o céu é mais alto do que a terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos” (Is 55, 8-9). Curiosa, a maneira de agir de Deus: ele não vive intervindo a toda hora na obra da criação para impedir a ação do mal, mesmo que o mal se alastre, prejudicando uma pessoa ou mesmo várias gerações. É que se ele o fizesse, não sobraria espaço para a liberdade humana; seríamos, então, meros joguetes, sem responsabilidade ou mérito por nossos atos. Nossos pensamentos, palavras e atos são muito mais importantes do que imaginamos. Do uso de nossa liberdade nasce uma série de consequências, que tornarão a vida humana melhor ou pior. Depredamos a natureza e introduzimos desequilíbrios em sua ordem? Não haverá milagres para que mil desgraças sejam afastadas. Deixamos que a ganância tome conta de nosso coração e criamos estruturas iníquas em nossa sociedade? Não haverá intervenção divina para que menores deixem de perambular pelas ruas de nossas cidades e maiores não morram de fome. Poluímos nossos jovens com filosofias de vida marcadas pelo consumismo e hedonismo? Não haverá atos celestiais para evitar o vazio e o sofrimento em muitos corações. No passado como no presente, Deus nos leva a sério. Ele, que nos deu a liberdade, é o primeiro a respeitá-la, mesmo que a usemos para fazer o que for contrário à Sua vontade, prejudicando pessoas e nos empobrecendo. Um dia, porém, todos – Herodes, Herodíades, a jovem dançarina, João Batista, você, eu... – responderemos pelo uso de nossa liberdade. Mais do que uma ameaça, essa certeza deve ser uma força motivadora para passarmos a vida fazendo o bem. Já os que usam inadequadamente sua liberdade devem ter, ao menos, a capacidade de assumir as consequências de suas escolhas. Fonte: CNBB