Artigo

Um Padre Rezando

08 09 2020

Fui coroinha quando eu era criança. Contava com oito anos quando comecei a ajudar no altar o pároco da igreja que eu freqüentava. Era bastante dedicado e ajudava três missas na semana.
Recordando-me desse fato, hoje, após trinta anos, confesso que embora eu tenha ouvido muitas homilias do referido sacerdote, não sou capaz de lembrar-me de uma frase dita por ele nem de suas atividades pastorais. Infelizmente, nem o nome dele eu me recordo. Sei que era um bom padre, italiano e; uma foto que ainda possuo da turma toda de coroinhas com ele à porta da igreja não me deixou nunca esquecer sua fisionomia.
No entanto nem todas as lembranças que trago desse sacerdote estão enevoadas e desbotadas pelo tempo. É vivíssima em minha memória uma recordação forte, daquelas coloridas que parecem ter ocorrido ontem: Nunca me esquecerei que ele chegava a igreja sempre, sem nunca falhar, meia hora antes da missa e passava pelo menos vinte minutos ajoelhado diante do sacrário recolhido em profunda oração e adoração, totalmente compenetrado e alheio ao que se passava a seu redor. Mesmo com oito anos de idade essa cena me encantava e se gravou para sempre em minha memória.
Lembro também que o povo o imitava: não havia conversas na igreja porque “o padre estava rezando”, e a grande maioria do povo que ia chegando punha-se também de joelhos em seus lugares e imitavam seu pároco na oração: cabeças inclinadas, joelhos dobrados e corações elevados a Deus.
Nunca me esquecerei desse exemplo, dessa imagem, desse testemunho, mesmo que pareça tão paradoxal se encantar tanto com a figura de um sacerdote rezando; cena que deveria ser corriqueira, trivial, comum diante de nossos olhos mas que infelizmente não é.
Certamente esse padre fez tanto pastoralmente falando... tantas atividades, tantos estudos, tantas leituras, tantas exortações e exegeses, mas de tudo isso o que restou após um quarto de século em minha memória? Restou seu exemplo, seu testemunho de fé e amor a Deus, restou a imagem de um padre que orava e queria ser santo.
Quando perdemos alguém que amamos, quando nos recordamos de uma pessoa que a igreja reconhece como santo ou santa, o que lembramos é do bem que essa pessoa praticou, da bondade que teve, da justiça que exerceu. Diplomas e títulos não entram no céu, não fazem ninguém mais ou menos bom ou santo. De todos os trabalhos, de todas as fadigas, ao fim das contas restar-nos-á apenas o bem que fizemos, o amor que doamos, os bons exemplos que deixamos.
Sábio dito popular que afirma que as palavras podem até comover, mas o que arrasta mesmo são os testemunhos.
Que o exemplo desse sacerdote a longínquos anos no passado nos ensine o que realmente é necessário, o que realmente imprime de modo indelével a fé na alma e na vida das pessoas: Não nossas reuniões, não nossas “formações e cursos” ministrados ao povo – embora sejam necessários e úteis – mas o que realmente arrasta são os exemplos, os testemunhos verdadeiros de uma fé viva, verdadeira, autêntica para que nossos discursos convençam de fato e não sejam vazios como nós se não cultivarmos a vida interior com Cristo em Deus.

Por Pe. Fernando Rodrigues Caldeira.