Palavra do Bispo

NA PANDEMIA, ENXERGAR DEUS NO IRMÃO

19 09 2020

“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”. (Hb, 4-12)
Urge que aconteça uma verdadeira conversão: pessoal, social, comunitária. Verdadeiramente só sairemos bem destes tempos de Pandemia se soubermos aproveitar os acontecimentos atuais para revermos nossa maneira de viver. E isso pode causar dores, inquietações, mas nada que, com fé e com o auxílio do Espirito Santo de Deus, não possamos vencer. A conversão pessoal passa pelo autoconhecimento, exige um olhar interior mais detalhado, sincero, que nos leve ao mais íntimo de nós mesmos. Precisamos nos avaliar para reconhecer em nós as mudanças necessárias. A partir daí é preciso que haja uma firme decisão de mudança. Conhecer-se, reconhecer-se pecador, arrepender-se e mudar de direção. Isso é conversão. Importante frisar que a conversão é diária, constante, mas parte de uma firme decisão: a de não mais ofender a Deus e entristece-Lo por conta de nossos erros, antes, querer permanecer Nele, sempre. O arrependimento acontece quando vemos com clareza o que fazemos diante do desejo de Deus para nós. Mais do que admitir nossos erros e deixar Deus agir de modo pleno em nós, a conversão deve nos levar a ver Deus nos outros, na natureza, no universo por Ele criado. Fala-se muito em um ‘novo normal’. Mas, será que o ‘novo normal’ a que se referem tantos “especialistas”, não é o normal criado e desejado por Deus, que deveríamos estar vivendo desde sempre? A Carta Encíclica Laudato Si nos exorta a essa vivência, nos chama a olhar ao redor com os olhos de Cristo, o Verbo Encarnado, que selou a Aliança Eterna, com sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição. A Palavra de Deus afirma a nossa pertença ao Criador, como filhos e filhas amados e desejados por Ele. Temos, graças ao Espírito Santo que habita em nós, a capacidade de dialogar com Deus, numa tal intimidade que revela a força do cuidado do Criador conosco, suas criaturas e essa possibilidade de diálogo se expressa também em nossa comunicação com os irmãos e irmãs. Por desígnios misteriosos, ‘Deus limitou-Se a Si mesmo, criando um mundo necessitado de desenvolvimento, onde muitas coisas que consideramos males, perigos e fontes de sofrimentos, na realidade fazem parte das dores de parto que nos estimulam a colaborar com o Criador’ (LS). Neste Mês da Bíblia, em meio a todas as consequências causadas pela Covid, convém nos voltarmos à essência da Palavra que nos alerta que fazemos parte do todo, que devemos cultivar o ‘nós’, não o ‘eu’ pois, advindos do mesmo Criador, nossos gestos devem abraçar a todos, não apenas nós mesmos. Fomos, de certa forma, obrigados a cuidar do outro, seja no isolamento social, seja nas demais precauções que passamos a tomar, para nosso próprio bem-estar, seja para a proteção do outro, e isso se revela um processo de conversão: mudamos nossos hábitos antigos nos adaptando a esses tempos.  Busquemos força na Palavra, que, “Viva e Eficaz”, se atualiza diariamente, pois Ela é o Verbo Encarnado, presente na Eucaristia e nos Sacramentos. Lembremos sempre da Virgem Maria, a Senhora de Lourdes, que ao dizer sim a Deus, não pensou em Si mesma, mas gerou o Salvador para todos! Nossa Senhora de Lourdes, vosso povo clama: socorrei e abençoai a Diocese de Apucarana!

Dom Carlos José
+ Bispo de Apuracana