Ler a Bíblia é perigoso?

02 09 2015

Apucarana, 01 de setembro de 2015

Quando eu era criança, não nos permitiam ler a Bíblia, pois diziam que era perigoso. Cresci com essa posição, por parte de alguns adultos, inclusive dos pais. Mas sempre tinha uma vontade de conhecer aquele livro tão grande. Minha catequista não deixava nem folhear o Santo Livro que ficava sempre em cima da mesa, na sala onde aconteciam os encontros de catequese.

Fui crescendo e, na adolescência, os pais compraram um pequeno livro que continha os quatro evangelhos, das Paulinas, e deram para um irmão e uma irmã que estavam na catequese. Um dia, tomei esse livrinho e comecei a ler. Não sabia que ali se encontrava uma parte da Bíblia e continuei a ler sem parar. Terminava de ler e começava de novo e, assim, sucessivamente. Perdi as contas, mas muitas vezes tive a graça de reler a parte principal das Escrituras.  Depois consegui um Novo Testamento e, quando fui operário, comprei uma Bíblia inteira. E assim começou minha caminhada com a Palavra de Deus. Inclusive tenho uma coleção de 182 bíblias de diversas edições, editoras, línguas e idades.

Tenho certeza que minha vocação ao sacerdócio se desenvolveu, eficazmente, à luz dos santos evangelhos. Sempre contemplava, com muito ardor, Jesus chamando as pessoas para segui-lo.

A leitura da Bíblia pode ser perigosa? Talvez seja. Depende de como a interpretamos. Mas o resultado final não deve ser aquele que retiramos de nossas interpretações pessoais, mas sim da interpretação que a Igreja faz daquilo que encontramos nas páginas bíblicas.

Segundo as orientações da Igreja Católica, “O problema da interpretação da Bíblia não é uma invenção moderna como algumas vezes se quer fazer crer. A Bíblia mesma atesta que sua interpretação apresenta dificuldades. Ao lado de textos límpidos, ela comporta passagens obscuras. Lendo certos oráculos de Jeremias, Daniel se interrogava longamente sobre o sentido deles (Dn 9,2). Segundo os Atos dos Apóstolos, um etíope do primeiro século encontrava-se na mesma situação a propósito de uma passagem do livro de Isaías (Is 53,7-8) e reconhecia ter necessidade de um intérprete (At 8,30-35). A segunda carta de Pedro declara que “nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular” (2 Pd 1, 20) e ela observa, de outro lado, que as cartas do apóstolo Paulo contêm “alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem, como fazem com as demais Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pd 3, 16)” (Pontifícia Comissão Bíblica – A Interpretação da Bíblia na Igreja – Introdução)

Através da Leitura Orante, em profunda comunhão com a Igreja, vamos encontrar na Bíblia Palavras de vida. A Bíblia fala da vida e nos conduz à verdadeira vida. Não é suficiente ler a Bíblia e ter conhecimento de seus textos. É muito importante que a Palavra se torne vida em nossa vida. E que através de nossas atitudes, fundamentadas nos valores propostos por Jesus, sejamos facilitadores, aos que estão à nossa volta, para que todos tenham a oportunidade de uma experiência de encontro com o Senhor e vivam de acordo com o projeto de vida que Deus nos propõe. Portanto, a Bíblia no fala da vida e nos motiva a defender a vida.

Pela Palavra de Deus, o Espírito Santo vai nos motivando a viver em oração e nos levando a ações verdadeiramente missionárias. A leitura da Bíblia, sem o espírito missionário da Igreja, pode nos transformar em intelectuais religiosos, mas não em discípulos missionários de Cristo.

Como imitadores da Mãe de Jesus, guardemos no coração o que Deus nos fala através das Escrituras e sejamos protagonistas de ações verdadeiramente transformadoras.

+Celso A. Marchiori

Bispo Diocesano de Apucarana