Quaresma, Misericórdia e Campanha da Fraternidade

01 Mar 2016

Apucarana, 01 de março de 2016

Quaresma é um tempo, dentro do Ano Litúrgico, que nos faz constantes apelos, especialmente nos chamando à conversão, para que nos preparemos para a grande festa da Páscoa. É um tempo favorável para nos arrepender e confessar nossos pecados, para mudarmos de atitudes, para sermos melhores discípulos, vivendo mais perto de Cristo e nos identificando com ele.

Iniciamos esse tempo penitencial na Quarta-Feira de Cinzas e faremos uma caminhada quaresmal por quarenta dias até o Domingo de Ramos. A partir dali entraremos na Semana Santa, período onde vamos contemplar com mais intensidade o Mistério Pascal de Jesus, ou seja, sua Paixão e Morte, culminando com a grande Liturgia da Vigília Pascal no Sábado Santo. É a celebração do Tríduo Pascal. Na quarta-feira da Semana Santa, na Catedral Nossa Senhora de Lourdes, teremos nossa Missa Crismal com a bênção dos Santos Óleos dos Catecúmenos, dos Enfermos e da Crisma, como também a Renovação das Promessas por parte dos Diáconos e dos Sacerdotes diante do Bispo.

O tempo de quaresma neste ano se reveste de um colorido especial. É o Ano Santo Extraordinário da misericórdia. O Papa Francisco quer esse Ano Santo seja para todos nós um verdadeiro momento de encontro com a misericórdia de Deus. Seu desejo é que o Jubileu da Misericórdia seja uma experiência viva da proximidade do Pai que nos leve a sentir pessoalmente a sua ternura e, consequentemente, que a nossa fé se fortaleça e nosso testemunho se torne mais eficaz e credível.

Aproveitemos bem desse tempo favorável que o Senhor nos propõe. Pela oração, jejum, penitência e caridade trabalhemos em busca de nossa conversão. Acolhamos a Palavra de Deus e da Igreja e pratiquemos com alegria as obras de misericórdia corporais: dar de comer a que tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar pousada aos peregrinos, vestir os nus, visitar os enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos; e as obras de misericórdia espirituais: ensinar os que não sabem, dar bom conselho, corrigir os que erram, perdoar as injúrias, consolar os tristes, sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo, rezar a Deus por vivos e defuntos.

Em tudo, que a caminhada quaresmal nos leve a renovar a vida cristã e a viver em santidade junto de Deus, da família e da comunidade.

Neste período de retiro interior, de penitência e conversão, marcado pela misericórdia de Deus, a Igreja no Brasil, através da Campanha da Fraternidade, convida seus filhos e filhas a tomarem consciência de uma das realidades que aflige milhões de irmãos deste imenso País.

Com o tema: “Casa Comum, nossa responsabilidade” e com o lema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24), a Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano deseja assegurar aos milhões de brasileiros que vivem à margem da sociedade, nas periferias, favelas e cortiços, o direito ao saneamento básico, tão necessário para terem condições de vida digna e saudável.

Na verdade, a falta de saneamento básico, não faz sofrer somente os moradores das periferias, mas sofre toda a comunidade que vive na Casa Comum, pois os rios poluídos, a carência de água potável, o elevado gasto na saúde pública para combater as epidemias, que são causadas por esta situação, atinge toda a comunidade humana. Portanto, é responsabilidade de todos e de todas, começando por nós e pelas autoridades públicas, o cuidado de toda a criação. Iluminados pela Palavra de Deus e pela fé, não fiquemos indiferentes. A natureza é obra de Deus. É o jardim no qual ele nos colocou para vivermos aí com alegria, saúde e muita comunhão. Ele viu que tudo era muito bom e a confiou aos nossos cuidados.

Que essa Campanha da Fraternidade nos incentive para que “aprofundemos a cultura ecológica. Ela não pode se limitar a respostas parciais, como se os problemas estivessem isolados. Ela «deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático» (Laudato si’, 111). Queridos irmãos e irmãs, insisto que o rico patrimônio da espiritualidade cristã pode dar uma magnífica contribuição para o esforço de renovar a humanidade. Eu os convido, principalmente durante esta Quaresma, motivados pela Campanha da Fraternidade Ecumênica, a redescobrir como nossa espiritualidade se aprofunda quando superamos «a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor» e descobrimos que Jesus quer «que toquemos a carne sofredora dos outros» (Evangelii gaudium, 270), dedicando-nos ao «cuidado generoso e cheio de ternura» (Laudato si’, 220) de nossos irmãos e irmãs e de toda a criação” (Papa Francisco).

Caminhando com Maria, a Mãe de Jesus, tenhamos um bom e santo tempo quaresmal. Deus vos abençoe.

+Celso A. Marchiori – Bispo da Diocese de Apucarana