SERMÃO DO ENTERRO
Pe. Valdecir Ferreira
Cura da Catedral Basílica
Há um silêncio que não é ausência, mas plenitude. Um silêncio que não é vazio, mas ventre. Um silêncio que não é esquecimento, mas memória viva do amor que sofre. É nesse silêncio que hoje nos colocamos, após termos caminhado com Maria pelas veredas da dor, acompanhando-a em suas sete dores, que não são apenas recordações de um passado distante, mas pulsações vivas do mistério da redenção que atravessa a história.
Maria, a Virgem Dolorosa, não grita. Não se revolta. Não rompe o tecido do sofrimento com palavras precipitadas. Ela permanece. E permanecer, na linguagem do Evangelho, é amar até o fim (cf. Jo 13,1). Sua dor não é estéril; é uma dor habitada por Deus. É uma dor que gera, como em Belém, mas agora gera na noite do Calvário. Se em Belém ela deu à luz o Filho de Deus, no Calvário ela dá à luz uma humanidade redimida.
A profecia de Simeão ecoa como uma lâmina que atravessa os séculos: “Uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2,35). E esta espada não é apenas um evento, mas um caminho. A dor de Maria não se concentra em um único instante; ela se estende como um fio invisível que une a fuga para o Egito, a perda do Menino no Templo, o encontro no caminho do Calvário, a crucifixão, a descida da cruz, o sepultamento. Cada dor é um sim renovado. Cada lágrima é um ato de fé.
Mas hoje, ao contemplarmos Maria, não podemos fazê-lo como quem observa de fora. A dor de Maria é também a dor da humanidade. Cada mãe que chora um filho, cada coração que experimenta a perda, cada vida marcada pela injustiça, pela doença, pela solidão — tudo isso encontra eco no coração de Maria. Ela não é uma figura distante, mas uma presença que participa profundamente das dores do mundo.
E então, olhamos para a Cruz. E ali, aos pés da Cruz, encontramos Maria. O Evangelho nos diz com sobriedade: “Junto à cruz de Jesus estava sua mãe” (Jo 19,25). Não há descrição dramática, não há palavras excessivas. Apenas uma presença. Estar. Permanecer. Sustentar. Amar.
Aos pés da Cruz, Maria torna-se a Mãe da Igreja, quando Jesus lhe diz: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19,26). E ao discípulo: “Eis a tua mãe” (Jo 19,27). Nesse momento, a dor se expande. Já não é apenas a dor de uma mãe por seu Filho, mas a dor de uma mãe por toda a humanidade. Maria recebe cada um de nós. Recebe nossas dores, nossas feridas, nossos medos, nossas esperanças frágeis.
E aqui, neste ponto, a contemplação se aprofunda: a dor de Maria está inseparavelmente unida ao mistério da redenção. Não se trata de uma dor isolada, mas de uma dor oferecida, unida, participada. Como nos ensina a tradição da Igreja, Maria coopera de modo singular na obra da salvação, não como fonte, mas como serva fiel, totalmente configurada ao sacrifício de seu Filho.
E quando olhamos para Lourdes, para aquela gruta simples de Massabielle, percebemos que a dor de Maria não terminou no Calvário. Ela continua a visitar seus filhos. Continua a inclinar-se sobre a humanidade ferida. Em Lourdes, Maria aparece não em glória distante, mas em proximidade humilde. Ela vem ao encontro de Santa Bernadette Soubirous, uma menina pobre, frágil, marcada pela doença e pela simplicidade. E ali, na pobreza de uma gruta, Maria revela a riqueza da graça.
A gruta de Lourdes é, de certo modo, prolongamento do Calvário. É rocha, como o sepulcro de Cristo. É silêncio, como o Sábado Santo. É lugar de lágrimas, mas também de esperança. Ali, a água que brota não é apenas sinal de cura física, mas símbolo da graça que brota do lado aberto de Cristo (cf. Jo 19,34). E Maria, a Virgem Dolorosa, torna-se também a Virgem da Esperança. Quantos chegam a Lourdes carregando suas dores! Quantos ali choram, rezam, suplicam! E, no entanto, algo acontece naquele lugar: a dor não desaparece magicamente, mas é transfigurada. Ela encontra sentido. Ela encontra um coração que a acolhe.
Hoje, ao contemplarmos Maria, somos convidados a entrar nesse mistério: permitir que nossas dores sejam unidas às dores de Cristo. Como nos recorda São Paulo Apóstolo: “Completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24). Não porque a redenção seja incompleta, mas porque somos chamados a participar dela.
Maria nos ensina essa participação. Ela não foge da dor. Ela não a nega. Ela não a anestesia. Ela a oferece. Ela a vive na fé. E é justamente aí que nasce a esperança. Porque a última palavra não é a dor. A última palavra é a ressurreição.
No silêncio do Sábado Santo, Maria guarda a esperança. Enquanto tudo parece terminado, enquanto o mundo parece ter vencido, enquanto o sepulcro está fechado, Maria crê. Sua fé não vacila. Ela é a única que, na noite mais escura, mantém acesa a chama da esperança. E esta esperança não é uma ideia. É uma presença. É Cristo ressuscitado. Depois daquele instante solene em que, aos pés da Cruz, o Senhor confia a Mãe ao discípulo e o discípulo à Mãe, o Evangelho nos diz com delicadeza: “e, a partir daquela hora, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27). E ali começa um novo capítulo, silencioso e profundamente humano: Maria entra na casa do discípulo amado, mas também entra na história ferida daqueles que haviam fugido. Ela passa a conviver não apenas com aquele que permaneceu fiel, mas também com os que negaram, com os que traíram, com os que se dispersaram no momento da dor. E é precisamente neste espaço — feito de fragilidade, de culpa, de memória e de esperança — que nasce o Sábado Santo: um tempo em que os corações são lentamente colocados em ordem, não por acusações, mas pela presença mansa de Maria; um tempo em que o silêncio não é ausência, mas gestação, não é vazio, mas promessa. É o silêncio da semente que cai na terra e morre (cf. Jo 12,24), não para desaparecer, mas para preparar o milagre da vida nova. Por isso, não é por acaso que, na manhã de Páscoa, Cristo ressuscitado se manifesta no jardim (cf. Jo 20,15): Ele é a semente que germina, o fruto que irrompe, a vida que vence a morte. E também nós, quando permitimos que o nosso próprio Sábado Santo seja habitado por este silêncio fecundo — quando deixamos Maria reorganizar nossas feridas e recentrar nossa existência em Cristo — tornamo-nos terra boa, capazes de reconhecer que, mesmo nas noites mais densas, já está escondida a aurora da ressurreição.
Por isso, nossas dores, unidas às dores de Maria e de Cristo, não são caminho de desespero, mas de passagem. São Páscoa. São travessia. São semente lançada na terra que, aparentemente morta, prepara o milagre da vida nova (cf. Jo 12,24).
Hoje, cada um de nós traz suas dores. Talvez dores silenciosas, que ninguém vê. Talvez feridas antigas, que ainda sangram. Talvez angústias do presente, incertezas do futuro. Tudo isso pode ser colocado nas mãos de Maria. Ela não retira a cruz, mas caminha conosco. Ela não elimina o sofrimento, mas o ilumina com a fé. Ela não responde todas as perguntas, mas nos ensina a confiar. E então, neste momento, somos convidados a rezar. Não com muitas palavras, mas com o coração aberto. Como filhos que se aproximam da mãe.
Oração
Ó Maria, Virgem Dolorosa,
Mãe do silêncio fecundo e da dor que gera vida,
acolhe hoje as dores que trazemos em nosso coração.
Tu que permaneceste de pé junto à Cruz,
ensina-nos a permanecer nas nossas cruzes,
sem desespero, sem fuga, sem endurecimento,
mas com fé, com esperança, com amor.
Tu que guardaste a esperança no silêncio do Sábado Santo,
sustenta-nos quando tudo parecer perdido,
quando a noite for longa,
quando o sepulcro parecer definitivo.
Ó Mãe de Lourdes,
que na gruta revelas a ternura de Deus,
lava nossas feridas com a água da graça,
cura nossas cegueiras,
fortalece nossas fragilidades.
Recebe, ó Mãe, nossas dores,
une-as às dores de teu Filho,
e transforma-as em caminho de salvação.
E faze-nos, como tu,
capazes de crer contra toda esperança,
capazes de amar até o fim,
capazes de esperar a aurora da ressurreição.
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