Em sua primeira Encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV dedica o segundo capítulo à apresentação dos fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja. Diante das rápidas transformações provocadas pela inteligência artificial e pelas novas tecnologias, o Pontífice recorda que a Igreja possui um patrimônio de sabedoria capaz de iluminar os desafios do tempo presente, oferecendo critérios para a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e verdadeiramente humana. O Papa recorda que a Doutrina Social da Igreja não é um conjunto de teorias abstratas nem um sistema político ou econômico específico. Trata-se de uma reflexão nascida do Evangelho e da experiência cristã, que procura orientar a vida pessoal e social à luz da dignidade da pessoa humana. Por isso, diante das chamadas “coisas novas” do nosso tempo, a Igreja continua a oferecer princípios que ajudam a discernir os caminhos que promovem a vida e aqueles que ameaçam a humanidade. No centro dessa reflexão está a convicção de que cada pessoa humana foi criada à imagem e semelhança de Deus. A dignidade humana não depende da capacidade de produzir, da eficiência, da riqueza ou do sucesso. Ela é um dom recebido do próprio Criador. Em uma época marcada pela valorização do desempenho e pela lógica dos algoritmos, Leão XIV alerta para o risco de reduzir as pessoas a números, estatísticas ou instrumentos de produção. A dignidade humana, porém, jamais pode ser medida por critérios de utilidade ou rendimento. A partir dessa verdade fundamental, o Papa reafirma o valor universal dos direitos humanos, que não são concessões do Estado ou de grupos de poder, mas decorrem da própria dignidade da pessoa. Entre eles, destaca-se o direito à vida, fundamento de todos os demais direitos. Ao mesmo tempo, o Pontífice recorda a necessidade de proteger os mais vulneráveis, especialmente os pobres, os migrantes, as mulheres vítimas de violência e todos aqueles que sofrem formas de exclusão social. Leão XIV retoma ainda os grandes princípios da Doutrina Social da Igreja: o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social. Esses princípios, longe de serem conceitos teóricos, constituem critérios concretos para orientar as escolhas políticas, econômicas e culturais da sociedade contemporânea. O bem comum é apresentado como o conjunto das condições que permitem a todas as pessoas desenvolver plenamente suas potencialidades. A destinação universal dos bens recorda que os recursos da terra e os frutos do progresso humano destinam-se a todos. A subsidiariedade valoriza a participação das famílias, comunidades e instituições intermediárias na construção da vida social. A solidariedade reconhece que ninguém se salva sozinho e que somos responsáveis uns pelos outros. Já a justiça social exige que as estruturas da sociedade estejam a serviço da dignidade humana, especialmente dos mais frágeis. Uma das contribuições mais originais da Encíclica consiste em aplicar esses princípios ao contexto da revolução digital. Em tempos de profundas transformações culturais e tecnológicas, Magnifica Humanitas recorda que o verdadeiro progresso não consiste apenas no avanço das máquinas ou na acumulação de riquezas, mas na promoção integral da pessoa humana. Somente quando a dignidade de cada homem e de cada mulher for colocada no centro das decisões será possível construir uma sociedade verdadeiramente humana, capaz de unir desenvolvimento, justiça, solidariedade e esperança.
+Dom Carlos José
Bispo da Diocese de Apucarana - Paraná