“Filhinhos, não amemos de palavras nem de boca, mas amemos em ação e em verdade.”(1Jo 3,18)
O Tempo Quaresmal é um chamado ao silêncio interior e ao discipulado. Como? Ouvindo a Palavra Sagrada com ouvidos atentos, ‘escutando-a’ com o coração e colocá-la em prática. Também o jejuar, abster-se de algo agradável e fazer penitências para honrar a Cristo, reconhecendo que Ele morreu nós e por toda a humanidade, vai nos impulsionar a uma mudança de vida. Muitos são os meios que auxiliam a vivermos a Quaresma de forma cristã para chegarmos à Semana Santa mais bem preparados; basta nos decidirmos e colocar em prática. Neste período quaresmal, somos também chamados a exercitar a caridade, que nada mais é do que olhar o próximo com o mesmo amor com que queremos ser olhados e amados em nossas necessidades. Quando o coração derruba a barreira da racionalidade permitindo que vejamos a necessidade do outro com os olhos de Jesus, o sentido principal da Quaresma foi alcançado. Caridade e amor são práticas essenciais no caminhar do cristão, não apenas na quaresma, mas na vida toda. Amar a Deus sobre todas as coisas implica amar o irmão como amamos a nós mesmos e como queremos ser amados e isso não é fácil nem simples. A caridade vai além de suprir a necessidade material, o que é dever de todos nós, partilhando o que temos com quem tem menos ou nada; no entanto, caridade é também agir com misericórdia, sem julgamentos e acusações, com acolhimento e piedade, é entender que também temos erros e acertos como todos. Tantos são os ‘invisíveis’ que ficam à espera de alguém que os escute, que lhes dê um pouco de atenção, que notem sua presença. Dentro de nossas comunidades mesmo, quantos ajudam e não vistos, quantos participam e não conhecemos? De que adiantam nossas penitências, jejuns e abstinências se não enxergarmos e acolhemos o irmão? E, se enxergando, o ignoramos? Amar não é opção, é decisão. Caridade é o amor posto em prática, é a ação que deriva do querer amenizar o sofrimento do irmão, com palavras, abraços, ou mesmo de forma silenciosa, na presença, na escuta e no carinho. A quantos Cristo curou sem julgar ou cobrar e, a nós mesmos, quantas vezes Ele agiu e age com caridade e misericórdia diante de nossa insensatez e frieza espiritual? Há um processo de conversão a ser vivido por nós, a cada dia, na aceitação do outro, que exige perseverança, luta interior e um levantar-se constante das quedas provocadas por nossas faltas, que apenas se consegue quando há uma total entrega à ação do Espírito Santo. Da mesma forma, a prática dos demais exercícios quaresmais exigem disciplina e força de vontade. Não é sobre comentar e mostrar o que se faz ou que se deixa de fazer (estou em jejum disso, faço penitência daquilo, não como tal coisa; ninguém precisa saber) e sim, agir sem alardes, como quem luta em segredo, vencendo cada dia uma pequena batalha interior, sabendo estar unido ao Cristo Sofredor e Vencedor de todas as batalhas. Ainda é Quaresma, temos tempo de começar, rever o que devemos fazer e realmente fazê-lo. Fazer para Cristo, por Cristo e com Cristo, com o auxilio da Virgem Maria, a Mãe de Lourdes que nada nos auxilio.
+Dom Carlos José
Bispo da Diocese de Apucarana - Paraná