Meu nome é Neide Maciel, sou catequista Instituída ao Ministério pelas mãos de Dom Carlos José, Bispo desta Diocese de Apucarana, e pertenço à comunidade da Paróquia Bom Jesus de Ivaiporã – PR e vou contar a história do Marcelo.
“Depois que eu fiz o Acampamento, eu me sinto incompleto por não receber a Eucaristia nas Missas”
Assim começa a história de Marcelo, um homem de 30 anos, Caminhoneiro de profissão, viaja pelo Brasil de norte à sul. Ele tem um filho de 6 anos que dá sentido à vida dele.
Marcelo vivia solitário no seu caminhão. Então, decidiu que queria fazer catequese para receber os Sacramentos da Eucaristia e da Crisma. Ele procurou o padre e se inscreveu na catequese da Paróquia Bom Jesus de Ivaiporã. Mas, como Marcelo pode fazer catequese se ele anda por todo Brasil, não fica em nenhum lugar e sua casa é seu caminhão?
Pensou em desistir? Não. Desistir não fazia parte dos planos do Marcelo. Ele não sabia como, mas já sabia o que queria. Foi então que ele me mandou uma mensagem e falou do seu desejo de receber os Sacramentos. Então expliquei que poderíamos fazer on-line.
Eu tinha certeza que seria um desafio, diferente de outras catequese on-line que já fiz, aqui estávamos falando de alguém que não para, sabendo que no Brasil a internet móvel não funciona em todos os lugares, isso dificultaria muito, e a possibilidade de ele desistir seria grande. Mesmo assim fomos em frente com nosso plano, pois agora o desejo não era só dele, mas também meu, de vê-lo recebendo os sacramentos.
Escolhi um catequista que pudesse ficar exclusivamente com ele, mas não deu certo, pois os horários deles não davam não coincidiam. O catequista era agricultor e nos períodos de plantio e colheita tudo ficaria complicado, ainda mais com Marcelo transportando cereais em outro estado. Resolvi eu mesma catequizá-lo. Eu, já tinha um catequizando médico para quem ministrava os encontros on-line entre um plantão e outro, e na maior parte destes ele era chamado para cirurgias. Tinha também uma turma com 6 jovens. Sabia que seria difícil atender o Marcelo, mas não impossível. Assim começamos, já um pouco atrasados dos demais catequizandos.
Cada encontro era uma vitória, pois foram sempre difíceis, nem sempre que marcávamos conseguimos, e nem sempre que fazíamos tínhamos marcado. Um dia ele mandou mensagem e eu quase dormindo, na cama, levantei de pijama era mais ou menos umas 22h e fizemos o encontro, não podia perder a chance da internet dele estar funcionando. Ainda bem que eu sempre tinha os encontros preparados, afinal dava catequese quase todos os dias. Os encontros com Marcelo eram em horários diversos, às 08h, 10h, 12h, 16h, 18h, 20h e 22h. Muitas vezes ficavamos semanas sem conseguir contato, pois quando ele vai para o Norte e Nordeste do Brasil, a internet fica ruim. Alguns dias planejamos, chegamos tantas vezes dar início, mas usando internet com Wi-Fi em um lugar onde têm mais de 300 caminhoneiros tentando falar com suas famílias, é impossível. Foram tantas e tantas tentativas frustradas.
O que me deixou sempre impressionada é que entre tantos colegas caminhoneiros, ele não tinha vergonha de fazer catequese. Caminhava entre eles com sua Bíblia, caderno e livro, indo até os escritórios das empresas, e oficinas pedir para usar a internet. Quando estava nas filas para carregar ou descarregar, de vez em quando ele pedia para eu esperar um pouco e “nós andávamos” com o caminhão para seguir a fila. Muitas vezes eu me sentia lá, no Rio Grande do Sul, nos Portos de Santa Catarina e Paraná, São Paulo e em várias cidades e estados, no Mato Grosso, Campo Grande, Cuiabá. No Pará foi onde mais fizemos nossos encontros, mas também foi onde tivemos mais dificuldade. Muitos dias ele subia no caminhão para mandar mensagens e fotos dizendo que não dava para fazer catequese aquele dia, a internet estava ruim.
Num período que ele ficou bem triste e desanimado, depressivo, falava coisas do tipo: “vou desistir”, e não era em desistir da catequese que ele falava, e isso era muito preocupante. Consegui uma psicóloga para fazer terapia on-line com ele. Em poucos meses ele se animou.
Em uma de suas vindas para casa, ele começou a namorar e ficou um pouco “sumido”, pois queria curtir a namorada. A namorada Camilly em pouco tempo já estava me ajudando com os encontros, e depois disso ele aprendeu mais rápido as orações que ainda não sabia. Teve um dia que a Internet estava muito ruim para eles, então ele subiu no caminhão, pendurou o celular da namorada e dentro do caminhão conectou o celular dele e assim conseguimos realizar um dos encontros que eu considero dos mais importantes SACRAMENTOS.
Como foi belo ouvi-lo dizer:
“Eu não conhecia além do Pai Nosso e Ave Maria. Hoje eu aprendi orações diferentes, sobre Igreja, sobre pecado, a Bíblia e tantas coisas que eu não conhecia.”
Quase todos os dias eu mando mensagens abençoando os dois. Pedi para eles todas as noites fazerem as orações juntos, lerem a bíblia com frequência, pois antes eu mandava por aplicativo, mas ele não estava ouvindo e nem lendo, com ajuda da namorada se animou e despontou na catequese.
Marcelo me lembra o Eunuco etíope da Rainha Candance, “como posso saber se ninguém me explica? ” (At 8, 31). E eu como Felipe, tentando explicar para ele em seu “carro”.
Nós viajamos pelo Brasil, e juntos levamos o Nome, o Amor, a Palavra e a Misericórdia de Jesus.
Como eu amo ser catequista!
Texto: Neide Maciel - Catequista da Paróquia Bom Jesus | Ivaiporã
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